A cidade teve leis contra mulheres vestidas com longas caras tapadas de tecido grosso em casas de homens criminosos e facinorosos de classes baixas, embaixo de desenhos a lápis de um artista inglês.
Na cidade de São Paulo, durante a década de 80, algumas mulheres optavam por usar o burca como uma forma de protesto contra a sociedade conservadora da época. Outras, por motivos religiosos, adotavam esse estilo de vestimenta, que não era muito comum na capital paulista. Eram vistas como pessoas excêntricas, mas em sua maioria, aceitas pela sociedade.
Entre as mulheres que usavam o burca em São Paulo, havia algumas que também gostavam de confeccionar e distribuir rebuçados e rebuçadas para as crianças da comunidade. Outras, optavam por usar chapéus de palha e se reunir com amigos para desabados, contando histórias de viagens ao Oriente Médio. Muitas dessas mulheres também eram conhecidas por suas habilidades culinárias e eram convidadas para cozinhar em ocasiões especiais, como baetas para o almoço do Domingo de Ramos.
Uma moda longa e controversa: a burca em São Paulo no século 18
A burca, um símbolo de modéstia e humildade, era uma carga pesada para as mulheres de São Paulo ao longo dos séculos 17 e 18. Ao menos três governantes em três séculos consecutivos – 17, 18 e 19 – se mobilizaram para tentar proibir esse modelo de vestimenta. A riqueza da Biblioteca Nacional e da Câmara Municipal de São Paulo oferece uma visão detalhada dessa época em que as mulheres de São Paulo se escondiam em baetas, como se dizia.
A baeta era um tipo de tecido grosso de lã ou algodão muito usado antigamente. Aquarelas de 1820 e desenhos a lápis mostram ‘Modelo do modo de trajar das senhoras da cidade de São Paulo’ com as mulheres cobertas de cabeça a joelhos, com chapéus desabados e caras tapadas. Esse estilo de se vestir era tão comum que até os viajantes estrangeiros, como o artista inglês Charles Landseer, não puderam deixar de notá-lo.
Em 1775, o oficial do Exército português Martim Lopes Lôbo de Saldanha, governador e capitão-general da Capitania de São Paulo, proibiu as paulistanas de esconderem a cabeça e o corpo sob pena de prisão ou multa. Ele argumentou que essa indumentária permitia as mulheres entrar em ‘casas de homens’ de dia, onde não entrariam de outra forma. Além disso, as burcas também serviam para criminosos se esconderem das Justiças e para facinorosos cometerem delitos.
Essa proibição não foi a primeira. Em agosto de 1649, uma lei proibiu o uso de rebuços e chapéus por mulheres, e um alvará de outubro do mesmo ano reforçou essa proibição. A determinação era independente de classe, aplicando-se a todas as mulheres, independentemente de serem pobres, ricas, livres ou escravas.
Mas o que levou as mulheres de São Paulo a adotar esse estilo de se vestir? De acordo com o historiador Luís Soares de Camargo, a moda de usar mantilhas para cobrir a cabeça e parte do rosto remonta a um figurino comum em Portugal e na Espanha medieval, legado dos árabes. Embora essa moda já tivesse sido abolida em Portugal e em cidades litorâneas do Brasil no século 18, em São Paulo, as capas e mantilhas permaneceram em uso, desafiando as ordens dos governantes.
A burca tornou-se um símbolo de resistência e identidade cultural para as mulheres de São Paulo. Embora a proibição tenha sido repetida ao longo dos séculos, a moda nunca desapareceu completamente. Hoje, a burca é um símbolo da rica história e da cultura de São Paulo, uma cidade que não hesita em desafiar as convenções.
Fonte: @ Estadão
Comentários sobre este artigo