Música black brasileira: Tim Maia, Hyldon e Cassiano são o ponto de partida de um estilo soul que evolui, com boa música e balanço negra.
Wellington é um taxista que faz ponto no Bourbon Shopping, na zona oeste de São Paulo. Com um soul contagiante, ele me surpreendeu no trajeto para a minha casa, ao invés da costumeira trilha de sertanejo, canções de consultório de dentista ou rádios de notícias, ele me presenteou com um som familiar que tocou fundo no meu soul.
‘Hyldon?’, perguntei, reconhecendo o estilo único do cantor. ‘Sim, Hyldon’, respondeu ele, sorrindo. A música de Hyldon é um verdadeiro tesouro da música brasileira, capaz de transportar qualquer um para uma época de ouro da música. Com seu estilo inconfundível, Hyldon é um artista que continua a inspirar novas gerações de fãs de música, e seu soul musical é algo que nunca passará de moda.
A Soul Music Brasileira: Um Documento da Raça
Durante uma conversa animada, sugeri que um amigo escutasse Os Diagonais, um grupo que trazia os vocais do lendário Cassiano ao lado do irmão, Camarão, e do também vocalista Amaro. Ele não apenas baixou o disco na hora em seu pendrive como demonstrou conhecer o Táxi, trio que Camarão e Amaro montaram depois dos Diagonais – e que teve Max e depois Aladim como cantores principais. Mas, talvez eu não tenha sido justo com ele. Bem que poderia ter citado novos intérpretes, grupos e instrumentistas que têm acrescentado outros balanços ao gênero americano.
A soul music brasileira é, como diria Moraes Moreira, um documento da raça pela graça da mistura. O estilo soul já era popular no início dos anos 1960, quando a boate Cave, no centro de São Paulo, tocava os últimos sucessos de Ray Charles e do cast da Motown – maior gravadora de música negra da história – para frequentadores como Erasmo e Roberto Carlos. Mas coube a um amigo dos Carlos, um certo Sebastião Rodrigues Maia, trazer o know-how da criação e da adaptação do soul para terras brasileiras.
O Legado de Tim Maia
Tim – ou Jim, como era conhecido em Tarrytown, cidade do estado de Nova York, para onde migrou no início dos anos 1960 –, passava horas em frente à igreja da cidade para aprender as vocalizações dos hinos gospel entoados ali. Quando voltou ao País, no final da década, ele até experimentou a fórmula em terceiros, mas nada se compara à maneira com que a usou em seus trabalhos. Tim não se contentou em aproveitar a batida, os timbres e o canto dos negros americanos: ele os adicionou aos gêneros musicais brasileiros. O cancioneiro do cantor carioca tem soul com elementos do samba, do forró, do baião.
As ideias de Tim Maia ao lado de artistas como Hyldon e Cassiano são o ponto de partida de uma música black tipicamente brasileira. Já a chegada do movimento Black Rio, na segunda metade dos anos 1970, adicionou ao balanço um forte discurso político e social. Posteriormente, essa salada sonora seria absorvida por outros gêneros brasileiros. O tal pagode de São Paulo, muito popular nos anos 1990, adaptou para seu universo o R&B, uma vertente mais eletrônica e ‘rapeira’ (de rap) do soul.
As Mudanças da Soul Music
Mas, você deve ter percebido que mudo de assunto como de rota, certo? Naquele domingo fomos de Tim Maia a Hyldon e de Cassiano a Sandra de Sá com a mesma velocidade em que pedi para mudar o ponto final da viagem. Para a gente chegar ao ponto principal do assunto, falemos das mudanças da soul music em seu local de origem e de como ela afetou o cancioneiro daqui. Eles alteraram por várias vezes seu modo de produção. Tentaram retomar a sonoridade dos anos 1960 e 1970, estreitaram os laços com o universo hip hop, colocaram música eletrônica… Uma loucura. E aqui a gente foi pelo mesmo caminho, com grupos que fazem uso do pagode romântico de décadas atrás com a soul music e até gente que prima pela soul music mais ortodoxa. São tantas opções que, se for citar todo mundo,
Fonte: @ Estadão
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